quinta-feira, 20 de abril de 2017

quando o meu cérebro não é o meu melhor amigo

ver doenças mentais romantizadas é uma coisa que me causa uma comichão tremenda. acabei de ver um filme onde uma rapariga "bipolar" é representada como alguém que "não está doente, é apenas sensível e honesta, um espírito livre, o que a torna mais normal que as pessoas ditas normais". hmmm. nope. maior cringe da vida.

não posso falar por quem sofre de transtorno bipolar, apenas da minha experiência como alguém que tem na sua vida o bonito combo de ansiedade crónica + transtorno de pânico. o certo é que não somos como os outros. estamos doentes sim e precisamos de ajuda. isso não tem que ser uma coisa que dê pena a quem o não está, não significa que temos de ser tratados com paninhos quentes. mas também não significa que somos criaturas especiais e aventureiras porque somos imprevisíveis, porque testamos limites. muitas vezes isso vem, falo por mim, de não saber distinguir o que é real e o que não é, por sentir que nada importa. e pela minha experiência isso tem mais de assustador do que bonito ou romântico. 

ter episódios de choro intenso em que todos os teus sentidos se fecham e tudo o que tens é uma angústia imensa que não sabes nem porquê. raiva incontrolável sem motivo face a pessoas que tu amas. horas passadas na internet à procura de mecanismos para lidar com ataques. o medo crescente face a certas situações ou até comidas que sabes que podem levar-te a ter um ataque de pânico. dias fechados em casa porque a motivação para fazer algo é nula. obcecar com certos assuntos e fazer filmes que te esgotam em todos os sentidos possíveis e imaginários. estar numa aula e sentir que vais morrer de repente enquanto tentas parecer normal porque sabes que é "só" o teu cérebro a ser um sacana. o teu namorado ver-te chorar e tremer compulsivamente enquanto pergunta o que pode fazer para te ajudar e tu nem conseguires abrir a boca para lhe responder porque está tudo tão confuso que nem sabes juntar palavras para formar uma frase. aperceberes-te que não és normal porque quando meras ressacas te causam episódios depressivos de três dias e contas isto à tua colega de quarto ela diz que percebe porque também às vezes se sente mal/culpada depois de beber (o que está longe daquilo que sentes). os bloqueios mentais e físicos constantes. não te conseguires mexer, não conseguires falar ou responder. chumbares a quatro cadeiras por pura estupidez, por dias em que chegas à porta da escola às oito da manhã e decides voltar para casa porque não consegues lidar com aquilo naquele momento. fecha a palma da tua mão e aperta com a maior força que tiveres - é nessa tensão que todos os meus músculos estão na maior parte do tempo. 

não é bonito. não te torna num artista - às vezes leva-te toda a criatividade. afasta-te das pessoas se não lhes souberes explicar o que estás a sentir, se não as ajudares a perceber que a culpa não é delas, e nem sequer tua. que isto vai e vem de um sítio que desconheces, ao qual tentas não ir parar muitas vezes. que é um problema real, palpável, físico, que químicos no teu cérebro não funcionam como deviam ou outras coisas que tais. não te torna mais especial ou menos especial. é apenas uma característica entre outras mil, não te define, não és a tua doença, és tu. especial já o eras antes e continuarás a sê-lo até que te apeteça. não é bonito, não é feio. é o que é, quem o tem, tem. e essa deveria ser a sua representação, não uma que nos faça desejar estar doentes.

mais representação, menos romantização.

2 comentários:

  1. Emocionei-me mesmo a ler este post porque me identifico mesmo com aquilo que estás a sentir. É capaz de ser das piores "doenças" que se pode ter devido a toda a imprevisibilidade que tem associada. O problema está em nós, e é tão difícil mudar às vezes...

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    1. Verdade mas com ajuda, aos poucos, tudo se consegue :) abracinho apertado <3

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