domingo, 15 de janeiro de 2017

shoo, fly

cinco dias passados na cidade-eterno-amor. dois dias e meio a percorrê-la. tinha saudades tuas, Lisboa. um vegetariano divinal, dias que começam mais cedo que o habitual, a casa da minha irmã, dormir no sofá, copos de tinto aqui e ali. 

no dia em que cheguei estava nervosa.

conheci a Ieva num hostel em Vilnius, ela estava a trabalhar lá há uns meses, voltou à Lituânia para conhecer as suas raízes. vinte e um anos com mais vida dentro que os meus vinte e quatro. lituana e americana por alguns tempos. sempre me interessei por artistas quase mais do que pela sua arte. mas depois há pessoas que são arte e ela é uma delas. a maneira relaxada como encara a vida, o notebook de memórias, os sonhos escritos após o acordar, meias e sandálias, as trips em dias passados, o ukulele e a maleta de vime. "perguntaram-me no aeroporto se trazia um gato". é, há pessoas que são arte.

admirava-a e às suas curtas de longe, pelo facebook como seria de esperar. na semana passada recebi uma mensagem. "hi :) are you in lisbon?" ela vinha a Portugal, não tinha onde ficar e estava cansada da vida de hostéis. receber gente em casa sempre me deixa feliz, e há sempre lugar para mais um onde quer que estejamos. combinámos e o nervoso miudinho veio à tona. há pessoas que são arte.

sempre que penso que irei passar tempo com pessoas assim, não consigo evitar o desconforto que precede tais dias. penso que não sou suficiente, que não terei assunto interessante, que acabarei por acenar com a cabeça e não dar nada de mim. pareço tão pouca, mesmo que não o seja. afinal de contas no fim somos todos feitos da mesma carne, os nossos corações batem todos da mesma maneira. a nossa mente, essa pinta com diferentes cores; mas isso não nos pode deixar inseguros. temos de pensar no que podemos partilhar, no que podemos aprender. ela diz ser uma pessoa que gosta muito mais de ficar em casa em vez de sair. ficou na quarta até às três a ver um episódio de mr. robot.

tinha saudades tuas, Lisboa. mas quando te vi, te estranhei.
o amor continua cá mas estamos como duas estranhas que se conheceram a fundo um dia.
estás igual mas diferente e eu igualmente diferente estou.

uma tarde infinita no pátio da casa independente. mais arte personificada encontrou caminho para a minha vida neste crepúsculo. a Emelia tem uns olhos castanhos tudo menos banais e um gorro que me fez lembrar o wally. é designer, tem um namorado baterista. "o Charlie ia adorar este bar". ambos são adoráveis. é amiga de uma amiga minha e está de visita. as quatro, tinto, uma mesa e histórias e mais histórias.

Lisboa, voltar a ti foi estranho; pareces parada no tempo enquanto eu volto com a sensação que passaram mil anos. mas tardes assim são o que me faz perceber que parte do meu amor por ti reside naqueles com quem te divido. "you can't really be grumpy in Lisbon for too long".

ela tem razão.
continuo a te estranhar mas não me assusto mais com isso.

não fui a concertos, que era o que me puxava a voltar. seis meses sem me perder numa sala ao som de uma banda qualquer pareceram infinitos. sexta-feira 13, gigs espalhados pela cidade. fui ao cinema pegar um blockbuster qualquer e ouvir uns putos a ser putos. o mais bonito é que isso não me irritou, ou pelo menos irritou menos que aos "shius" que pairavam no ar constantemente. são crianças a ser o que são e isso fez-me sorrir no escurinho do cinema. depois dormi. dormi descansada.

não sabia muito bem como começar aqui. que palavras te dizer. a minha mania de querer que seja sempre tudo à hora certa, tudo no tom certo. mas apercebo-me. não está tudo - está confuso - ainda me preocupo se está bom. se chama gente. mas tento não o fazer. não interessa. "estamos onde estamos como estamos". por agora, estou aqui.

e isso basta.
olá, mundo.